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Entrevista ao Dr. Varandas publicado no ojogo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sexta, 13 Abril 2012 22:41

120413frederico-varandas«Tem cara de puto e é de uma autoconfiança extrema, tendo assumido sem receios a direção clínica do Sporting, apesar da tenra idade e das acusações de cunha. Frederico Varandas andou pela Juve Leo, mas agora é médico e militar de carreira. Em 2008, no AFEGANISTÃO, viu a morte à sua frente e andou a tratar ferimentos de tiros. O capitão garante que este balneário do leão é difícil de vergar…

Frederico Varandas sucedeu a Gomes Pereira, em Agosto último, como diretor clínico do Sporting. O médico fisiatra, de apenas 32 anos, chegara ao clube apenas um mês antes, escolhido pelo próprio Gomes Pereira para se integrar na estrutura.

Sportinguista ferrenho desde que se conhece como gente, teve uma primeira experiência no futebol no Vitória de Setúbal, entre 2007 e 2011. Foi nesse período que teve de fazer as malas e mudar-se durante seis meses para o Afeganistão. Frederico é oficial de carreira do Exército e esteve em missão da NATO naquele país asiático. Aos pais, antes de partir, contou que ia trabalhar para um hospital de Cabul, mas na verdade o médico militar foi para a zona de conflito e esteve perto de perder a vida numa emboscada dos talibãs. “Há coisas que não posso contar muito em pormenor”, avisa de entrada o jovem médico, que mantém ar de miúdo e é surfista nos tempos livres.

 


Ser diretor clínico do Sporting depois de ter estado no Afeganistão, debaixo do fogo dos talibãs, deve ser um luxo…
A experiência no Afeganistão foi a mais marcante da minha vida. Como costumo dizer, voltando a casa é uma experiência fantástica. Podia ter corrido mal, felizmente correu bem. Mas nunca mais se vê a vida da mesma maneira, quando achamos que tudo vai acabar.

Pode recordar a noite da emboscada?
Era noite cerrada, estávamos num vale. Um médico ou um enfermeiro acompanhava sempre as patrulhas, e sofremos um ataque dos talibãs. Estivemos debaixo de fogo intenso durante 35 minutos. Graças à competência dos comandos, regressámos com feridos, mas todos vivos. Conseguimos ripostar e anular o inimigo.

Também entrou na troca de tiros e granadas?
Estava armado, mas não tive de disparar. Tivemos um ferido com um tiro na perna, outro atingido no braço, e tratei-os. Ainda hoje nos encontramos todos os anos em junho, no dia da emboscada. Foi o dia em que grande parte de nós se despediu da vida.

O que pensou e sentiu durante a emboscada?
Senti uma descarga de adrenalina forte. Ao mesmo tempo que tinha um bocadinho de medo, fiquei estupidamente tranquilo. Considero-me uma pessoa de sorte e, antes de ir para o Afeganistão, nunca duvidei que iria regressar. Mas quando me vi naquela situação, pensei: ‘Tu queres ver que eu vou ficar aqui? Com 28 anos?’ Lembro-me de pôr o capacete, carregar a G3 e pensar: ‘Vou fazer o meu trabalho e o que acontecer, acontecerá.’

A que se agarrou naquela altura? À religião?
Não. Agarrei-me aos meus sentidos, à visão, por exemplo, para ver onde eles estavam.

De que forma a experiência no Afeganistão contribuiu para o seu dia a dia?
Aprendi a conhecer os meus próprios limites, a passar dificuldades e a viver momentos difíceis. Em Cabul, foi mau; quando cheguei a Kandahar, foi ainda pior. Estivemos 42 dias isolados, no deserto, a ração de combate, sem água. Agora odeio pieguices, odeio atletas piegas, tento-lhes sempre incutir essa minha experiência da tropa: de que têm de se aguentar, mesmo havendo dor e desconforto, de que têm de ter capacidade de sacrifício.

Há algum jogador que deveria ter ido à tropa?
Existem verdadeiros leões dentro do balneário do Sporting, há muitos que iriam garantidamente comigo para o Afeganistão. Aliás, digo que este balneário do Sporting é difícil de vergar, é fortíssimo.

Balotelli, do Manchester City, seria um bom reforço para a sua brigada de comandos?
Levava mais depressa Pereirinha do que Balotelli para o Afeganistão. Se ele conseguiu parar Balotelli, que tem aquele corpo…

Pereirinha é mais corajoso?
Claro, ficou com uma luxação no ombro e continuou a jogar. E parou Balotelli…

Queria saber do seu Sporting quando estava no Afeganistão?
Sim, o Sporting fez desde sempre parte de mim. Aos 3 anos, já era atleta do clube, fiz ginástica desportiva até aos 13 anos. Sinto orgulho e responsabilidade por estar neste cargo, representa muito para mim. Ainda hoje me arrepio, numa receção como a que tivemos no aeroporto, quando viemos da Ucrânia, porque sei o que é estar do lado de lá; entre os 10 e os 17 anos pertenci à Juve Leo.

Mas voltando ao Afeganistão…
Houve um episódio curioso, no dia da final da Taça de Portugal de 2008, que o Sporting venceu frente ao FC Porto. Estávamos em Kandahar, e as informações secretas diziam que podíamos sofrer um ataque. Eu fui falar com os oficiais de transmissão, saber se era possível ouvir o relato, e disseram-me que não. Não havia internet, estávamos completamente isolados. Fiquei muito triste. Eu tinha levado um rádio pequenino do meu avô, com uma antena, que apanhava ondas curtas. Então lembrei-me de o ir buscar à minha mochila e, a mexer devagarinho, apanhei a Antena 1. Estávamos em regime de silêncio, era noite cerrada, todos os sportinguistas vieram para o pé de mim e por duas vezes foi quebrado o regime de silêncio, com os golos de Tiuí. Pela primeira vez, talibãs e afegãos sentiram o rugido do leão [risos].

Parece ter dificuldade em controlar-se emocionalmente durante os jogos…
Não [risos]. É um sofrimento controlado. Ser sportinguista não pode ser argumento para entrar no clube; é preciso, acima de tudo, ser competente. Mas sentir o clube é uma mais-valia. O meu objetivo final é sempre que o Sporting ganhe e a minha obrigação é ter os atletas disponíveis. Não posso ficar feliz com um departamento médico vazio, mas com zero de títulos.

Como é a sua relação com os jogadores?
Respeitam-me, sabem que comigo não há facilidades. Para se poder ser um bom médico, tem de haver uma relação pessoal forte com o paciente, sempre mantendo as distâncias.

 

In ojogo.pt


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