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Entrevista de Izmailov a «ojogo»: «Ser campeão pelo Sporting: nada me motiva mais» PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 29 Junho 2011 11:36
110619_izmailovDe um ano para o outro, a vida e o estado de espírito de MARAT IZMAILOV sofreram uma metamorfose. O russo passou de indesejado pela ex-estrutura do futebol do Sporting a forte carta de trunfo da Direcção eleita em Março - até teve direito a novo contrato. Tudo mudou. Ou quase tudo: "Um sorriso para a fotografia, pode ser?" - esforça-se o repórter. O Czar conserva a expressão glacial que faz dele o homem dos três pês: profissional, pragmático e perfeccionista. É assim no trabalho e... foi assim nesta entrevista exclusiva a O JOGO. Sem medo de tocar nas cicatrizes de um passado que podia tê-lo derrotado, mas acima de tudo esperançado num futuro luminoso.

Há um ano, quando o entrevistámos pela última vez, Marat Izmailov era uma pessoa angustiada, descrente e desconfiada. Imaginava que a tormenta pessoal ainda ia a meio e a verdade é que não se enganou, já que o seu joelho direito tornou a ceder e atrás desse vieram outros problemas com a anterior estrutura do futebol do Sporting. Esteve para sair, foi recuperado e agora, com contrato melhorado e renovado até 2015, é forte aposta da nova Direcção para a época 2011/12.

Alguma vez receou nunca mais voltar a jogar ao mais alto nível?
Esse era um medo que eu sentia todos os dias. Tinha receio, sim, mas não fiquei em pânico, nunca me rendi, nunca me senti derrotado. Dei a volta com um trabalho quase diário que se mantém. Tinha a perfeita noção de que se atirasse a toalha ao chão, estava tudo perdido e a esta hora poderia estar acabado, morto para o futebol. Debati-me com uma das lesões mais difíceis de superar. Cheguei a pensar que a paragem seria mais curta e ainda tive a esperança de que, com a operação, poderia recuperar grande parte da época. Mas depois percebemos que o processo era mais complexo e moroso... O aspecto mais negativo de toda esta história é que nunca ninguém conseguiu responder a uma questão para a qual também nunca encontrei resposta: "Conseguiria eu voltar a jogar ao mais alto nível depois da operação?" Era uma dúvida que me preocupava e com a qual dormia, pois não sabia como é que as coisas iam evoluir. Foi um período extremamente difícil da minha vida - pela lesão, pelo que se vivia dentro do clube, pela incerteza de tudo. Sabia que se, da minha parte, houvesse alguma fragilidade ou fraqueza, nunca mais voltaria a jogar futebol ao mais alto nível.

E, entretanto, já encontrou a resposta que tanto procurava?
Sim. Sinto que, no aspecto físico, tive um crescimento e um progresso muito grande em termos de capacidade. O meu primeiro objectivo naquela fase era voltar a recuperar as condições que tinha, e neste momento trabalho para que a minha resposta seja muito melhor. Muitas vezes fui obrigado pela minha própria vontade a impor-me, a ter de trabalhar mais, mais e mais. E continuo ainda hoje a exigir cada vez mais de mim. Muita coisa mudou na minha vida desde a última vez que falámos, é um facto. E há uma diferença substancial: naquela altura, o meu joelho não estava nas melhores condições - o que se confirmaria no início da pré-temporada -, mas hoje sinto-me cem por cento preparado para ajudar a equipa e o clube, o que faz com que a minha disposição e o meu estado de espírito sejam completamente opostos.

Sanados os problemas, foi convidado a renovar contrato pela nova estrutura do futebol e agora está ligado ao clube até 2015. Quando se olha ao espelho, o que vê é a imagem de um reforço para a nova época? Sente-se como no dia em que chegou ao Sporting, no Verão de 2007?
Acredito em mim, no meu trabalho, mas não sou pessoa de fazer promessas. Não vou dizer coisas que não têm a ver com a minha maneira de ser. Não vou dizer que vou ser melhor, mas faço tudo para isso, e o meu trabalho encarregar-se-á de dar a resposta. A época vai mostrar tudo. Continuo convicto das minhas capacidades da minha vontade, das minhas capacidades; só não gosto é de fazer prognósticos. A renovação de contrato que me fizeram foi claramente uma prova de confiança não só do ponto de vista futebolístico, mas também como pessoa. Trabalho todos os dias para demonstrar que a decisão dos dirigentes foi correcta.

O novo contrato, celebrado aos 28 anos, é válido até 2015. Isto é um sinal de que poderá fazer o resto da carreira no Sporting?
O meu grande objectivo é ajudar a que a equipa consiga os melhores resultados de sempre. É só nisso que penso, é nisso que me empenho.

Todo o processo foi facilitado pelo facto de Carlos Freitas - além de Luís Duque - ter estado na liderança das conversações?
Foi, pois Carlos Freitas esteve ligado à minha contratação. Foi tudo mais simples, pois sabia com quem estava a falar. Isso foi determinante na assinatura de um contrato com novos pressupostos.

"Gomes Pereira é uma pessoa inteligente e compreendeu-me"

Em Outubro, aquando da segunda operação ao joelho direito, deu uma entrevista explosiva ao "Soviet Sport". Fê-lo para tornar inequívoco que era impossível o relacionamento com o então director para o futebol, Costinha?
Quis acima de tudo exprimir o meu estado de alma, aquilo que estava a sentir naquele momento. Tudo o que disse era a minha verdade e disse-o de uma forma franca. Entendi que era importante marcar uma posição, transmitir o meu pensamento, porque havia quem dissesse muitas coisas a meu respeito sem razão de ser. Tinha mesmo de falar.

Além de questionar Costinha e de não poupar o então presidente Bettencourt, também pôs em causa o médico Gomes Pereira, com quem hoje trabalha como se nada tivesse acontecido. Não tinha confiança nele, mas agora já tem. Como se explica esta mudança radical?
Um aspecto importantíssimo foi a mudança criada pela entrada de José Couceiro no clube, investido de plenos poderes para resolver questões internas. Por outro lado, já tinha passado bastante tempo sobre o período de maior conflitualidade - durante o qual também tive o apoio do Sindicato dos Jogadores. A poeira já tinha assentado e tornámo-nos mais realistas e racionais quanto à necessidade de encontrar soluções. A partir de certo momento, as questões sensíveis passaram a ser colocadas num patamar diferente. José Couceiro sugeriu que não fazia sentido eu recuperar fora do clube, quando tinha contrato com o Sporting, e criou condições para a minha reintegração. Começámos a falar, tive então várias conversas com o médico, esclarecemos tudo em nome dos superiores interesses do clube e promovemos a reconciliação. Fiquei feliz, porque Gomes Pereira é uma pessoa inteligente e compreendeu-me. Não quero mexer muito mais no passado. O que posso dizer é que hoje trabalhamos de uma forma extraordinária, sem qualquer tipo de problemas, de forma sincera e muito melhor do que trabalhávamos no passado.

Antes da pacificação, esteve praticamente fora de Alvalade. A anterior administração da SAD tencionava rescindir-lhe o contrato de forma unilateral. Se Couceiro não tivesse intervindo, hoje ainda seria jogador do Sporting?
Não, acho que já não seria, porque a linha de orientação era outra. Não é segredo para ninguém que tínhamos chegado a uma situação em que não havia condições mínimas para trabalhar. Em face disso, o que se perspectivava era a minha saída, não havia outra solução. Felizmente, tudo mudou.

Foi reintegrado em Fevereiro, um dia depois da demissão de Costinha. Apenas uma feliz coincidência?
Uma coincidência, apenas isso.

Falaram?
Não, não chegámos a falar em nenhum momento.

E o presidente José Eduardo Bettencourt, então já demissionário, mas ainda em funções, conversou consigo?
Não.

Como foi recebido pelos colegas?
De uma forma excelente. A minha relação com eles sempre foi excelente. Todos os meus colegas sabem como sou, como me empenho no trabalho, como me sacrifico. Comemos juntos, vivemos juntos... As pessoas conhecem-me e, quando assim é, não há problemas.

"Houve um clube que me quis"

No período de diferendo, foi noticiada a hipótese de se transferir para o FC Porto ou para o Benfica. O que houve de verdade?
Houve interesse de um clube, isso é verdade, e o Sporting teve conhecimento da situação. Houve conversações.

Que clube?
Não vale a pena referir o nome, pois isso faz parte do passado. É um assunto morto e enterrado.

«Ser campeão pelo Sporting: nada me motiva mais»

E, de repente, um russo mexeu com o futebol português: Roman Abramovich jogou forte e levou André Villas-Boas do campeão FC Porto para o Chelsea. Este "favor" com assinatura bancária de um compatriota foi uma boa notícia?
Julgo que foi, para toda a gente. Aquilo que aconteceu não é mais do que uma consequência normal do trabalho feito no FC Porto. É o "risco" a que qualquer treinador se expõe por num período tão curto conseguir tão bons resultados como André Villas-Boas conseguiu. De uma forma genérica, há razões para todos estarem contentes.

Diz isso por entender que esta mudança súbita no comando da equipa pode facilitar a aproximação do Sporting ao FC Porto?
Não, não é por aí. O FC Porto é uma estrutura, uma organização forte, e sabe perfeitamente do que precisa para ter sucesso. O aspecto fundamental aqui é a qualidade dos jogadores, e os que estão lá são bons, são profissionais e vão trabalhar na mesma linha. Do ponto de vista prático, o guião vai ser o mesmo.

Do que é que o Sporting precisa para não repetir campanhas desgraçadas como as das últimas duas épocas e voltar a ombrear com os rivais na luta pelo título?
A estabilidade do clube e da equipa são fundamentais. Em termos de qualidade técnica e de atitude, não tenho nenhuma dúvida, mas é imperioso que todos tenham uma vontade férrea e a convicção de que há condições para sermos campeões. Temos de saber acreditar em nós.

Encara o título como uma obsessão?
Ser campeão nacional é o meu grande objectivo, a minha grande motivação.

O trabalho de reconstrução do plantel que está a ser concretizado entusiasma-o, deixa-o optimista?
Quando falo da minha motivação para a nova época, penso também no esforço da nova Direcção no sentido de trazer mais-valias para o plantel. Também por isso, sinto que a nova época vai ser diferente. Mas o meu optimismo não decorre apenas das entradas; os que estão no plantel têm muita qualidade e não podem nem devem ser subestimados, pois também eles podem ser determinantes naquilo que mais procuramos.

A nova estrutura do futebol pode contribuir para o quadro de estabilidade que considera essencial?
Sim, vê-se isso desde o primeiro dia em que chegaram. Já fizeram muita coisa, e já há resultados à vista. Quando falo de equipa, também falo deles. É em conjunto que vamos para a frente.

"Moutinho queria distrair-me mas somos bons amigos"

Finalizada a longa recuperação, o regresso de Marat Izmailov aos relvados aconteceu no Dragão, já na parte final da época. Na primeira vez que se cruzaram, João Moutinho, seu ex-capitão no Sporting, quis saudá-lo, até lhe puxou o braço direito, mas não teve troco. O russo explica tudo.

A dúvida sobre o que se passou no clássico entre si e Moutinho serviu de combustível ao debate no Facebook. Animosidade ou concentração máxima?
Percebo a questão, mas asseguro que foi feita uma interpretação que não é a correcta. Não tenho nem nunca tive qualquer tipo de problema com João Moutinho; bem pelo contrário, a minha relação com ele é boa, sempre foi. Respeito Moutinho como futebolista e como homem, tal como também tenho um grande respeito por Varela, de quem sou amigo - e reconheço que ambos fizeram uma grande temporada. O que se passou naquele momento é que, acabado de entrar, por volta dos 60', eu estava concentrado no jogo, na missão que me cabia interpretar em campo para ajudar os meus colegas a mudar o resultado, porque estávamos a perder. Ou seja, eu estava focalizado num objectivo competitivo, e a única coisa que Moutinho queria naquela altura era distrair-me.

"Apesar do que se passou não desejei as demissões"

Primeiro caiu o presidente [Bettencourt], depois o director para o futebol [Costinha], por fim o treinador [Paulo Sérgio]: a cadeia de renúncias ocorrida na última época parecia-lhe inevitável?
Para mim, não foi uma surpresa. Mesmo não tendo uma noção precisa do que os média noticiavam, percebia e sentia a pressão e o descontentamento que existiam no universo do Sporting. Independentemente das nossas divergências, que foram públicas, gostaria de deixar claro que nunca desejei que as pessoas se demitissem. O que sempre quis foi lutar para que o Sporting tivesse resultados, vitórias, e que as pessoas estivessem satisfeitas com a minha forma de trabalhar.

"Patrício já é o melhor guarda-redes português"

Testemunhou o lançamento de Rui Patrício como titular do Sporting e também puxou por ele. Já é o melhor guarda-redes português do momento?
Para mim, sim, a cem por cento. Vi a forma como cresceu, como trabalhou para suportar esse desenvolvimento. Deu passos gigantescos para se afirmar. Não se pode ignorar que houve um aspecto determinante para que emergisse, que foi terem acreditado nele pondo-o a jogar, mas vejo e valorizo a relação que mantém com o trabalho nos treinos. Dedicado, é cem por cento profissional; é o melhor, sem dúvida.

"Nunca pensei em ser capitão"

Em que ponto está a aprendizagem do português? Também tem treinado muito esse aspecto?
Vai devagarinho. Sobretudo percebo bastante, mas ainda não falo tanto como gostaria.

Afinando essa capacidade, imagina-se a entrar no grupo dos capitães da equipa?
Nunca pensei nisso, não vejo necessidade, não está entre os meus objectivos. Temos excelentes capitães, está toda a gente contente, e isso, para mim, é o mais importante.

"Desafio-me todos os dias para me superar"

A pré-temporada arranca oficialmente apenas a 4 de Julho, mas já está a trabalhar na Academia. Antecipou o fim das férias porquê e para quê?
Tenho de recuperar tudo o que perdi com a longa paragem na época passada. Continuar a perseguir novas metas em termos de progressão é um objectivo que exige um trabalho colossal e grande disponibilidade da minha parte. Sei disso e estou pronto para esse desafio todos os dias. Também não excluo a possibilidade de na pré-época não fazer rigorosamente tudo o que os meus colegas vão fazer. Não é líquido que consiga fazer sempre três treinos diários, mas essa é uma questão que terá de ser analisada em conjunto. O que pretendemos para este período é, de uma forma profissional e sensata, controlar as cargas para que não se repita a experiência negativa do passado. Trabalho com bola, corro, faço exercícios no ginásio...

Essa preparação consome-lhe quantas horas por dia?
Ah, isso é um segredo da equipa [risos]. Não sei, não sei... Não controlo as horas, não ando de cronómetro na mão. Temos um programa e cumprimo-lo treinando uma vez por dia.

Quando está em treino e/ou em jogo, pensa no joelho direito?
Não, nada me limita. Sei que tive uma lesão grave, mas isso não está na minha cabeça, não me retraio.

Nem lhe alterou a forma e o seu estilo de jogar?
Trabalho todos os dias para me superar e para conseguir estar no meu nível mais alto - e até para ser ainda melhor. Quero ficar mais forte, mais rápido, com mais capacidade física, porque só assim posso ajudar a que os resultados também apareçam no que depender de mim.

"Gosto mais de jogar pela zona central"

Em que posição lhe agrada jogar?
Aprecio actuar mais nas zonas centrais.

Em 4x4x2 ou 4x2x3x1?
Não me leve a mal, mas essa questão não é da minha competência. Estou sempre disponível para jogar nas posições em que os treinadores entenderem, isso para mim nunca foi nem será um problema. Se me pergunta onde gosto mais de jogar, eu respondo; se o treinador algum dia me questionar sobre isso, vou dar-lhe a mesma resposta. Mas quem tem de ver as necessidades da equipa é o treinador. E eu terei de jogar onde for mais importante para a equipa e não para mim.

"Paulo Bento soube mexer na Selecção"

Contava que Paulo Bento, seu primeiro treinador no Sporting, repusesse a Selecção em ordem assim tão depressa e ainda a recuperasse para uma qualificação [Euro'2012] que parecia arruinada?
Para ser sincero, vi pouco dos jogos de Portugal. No entanto, sei que os resultados foram excelentes e fico satisfeito. Portugal tem uma equipa com jogadores de muita qualidade, e o que me parece do trabalho de Paulo Bento é que ele conseguiu fazer o aproveitamento correcto das capacidades individuais em favor do interesse colectivo. Se estou surpreendido? Não, não estou. Os resultados da Selecção com Paulo Bento são óbvios, naturais em função da qualidade dos jogadores e do trabalho do seleccionador.

"Força colectiva do Braga saltava aos olhos"

Se no Braga alcançou bons resultados, no Sporting Domingos pode chegar ao ambicionado título nacional: esta é a ideia de Izmailov quando a conversa deriva para o novo treinador.

Já falou com Domingos Paciência?
Não.

E que opinião tem do trabalho dele?
Falando como observador e centrando-me no que vi no Braga, os excelentes resultados ali conseguidos, incluindo a presença na final da Liga Europa, são reveladores da qualidade profunda do trabalho que desenvolveu. Saltava aos olhos a força colectiva de uma equipa que, com um orçamento reduzido, não tinha grandes individualidades de dimensão internacional, mas fez tudo aquilo que vimos.

In ojogo.pt

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