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Quarta, 20 Outubro 2021
Manuel Fernandes. "Se eu não treinasse o Vitória, não me sentia realizado" PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sábado, 20 Novembro 2010 23:39

101120manuel_fernandes0000230613Em Setúbal, hoje é dia de festa pelos 100 anos do clube. O i entrevista o homem que já foi jogador, jogador-treinador e agora é só treinador

 

À entrada do Estádio do Bonfim há uma estátua com a seguinte inscrição: "Quem o viu jogar não esquece. Quem não viu, não sabe o que perdeu." O jogador em causa é Jacinto João, a pérola negra do Sado de que falamos na página seguinte. É o Jota, a referência mais lendária da história do Vitória de Setúbal. A partir de hoje, da história centenária do Vitória de Setúbal. Porque os sadinos cumprem um século de vida. A esse propósito, o i falou então com Manuel Fernandes, outra referência do mundo setubalense. Além de ter nascido naquele distrito (em Sarilhos Pequenos, freguesia do concelho da Moita, como ele tão bem propagandeia), foi também lá que acabou a carreira de jogador e começou a de treinador em 1987-88.

Mas calma, vamos por partes. Manuel Fernandes começou a jogar nos juniores do Sarilhense em 1966-67. No ano seguinte, saltou para os seniores, que disputavam a 3.a divisão. A CUF do Barreiro estava atenta e contratou-o no Verão de 1969. Foi lá que deu nas vistas, primeiro nas reservas, depois na equipa principal. Em 1970-71, a CUF começou o campeonato na Luz e perdeu 1-0 com golo de Eusébio. Depois, goleada de 7-1 ao Leixões, com três golos de Manuel Fernandes. Começava aqui a construir--se uma lenda que ainda perdura, agora fora dos relvados. Avançado com uma técnica fora do comum e um instinto que lhe permitia marcar os golos mais incríveis, da cabeça aos pés, Manuel Fernandes chegou a Alvalade em 1975, para substituir o argentino Yazalde, Bota de Ouro (melhor marcador da Europa) com 46 golos. De suspeito a herói, foi um ápice. Em 90 minutos. Pudera, com um hat trick à Académica (5-3) na estreia, os adeptos sportinguistas descansaram. E depois foram vibrando à medida que Manuel Fernandes construía uma carreira ímpar. Em 12 épocas, foram 433 jogos oficiais e 255 golos, estabelecendo--se como o segundo melhor marcador de sempre da história do clube, só atrás do insuperável Peyroteo (529). Das grandes tardes que proporcionou, ao lado de outros artistas da bola como Jordão, Keita e Oliveira, uma destaca-se claramente: os quatro golos ao Benfica nos inesquecíveis 7-1 em Dezembro de 1986. Foi o melhor marcador do campeonato nacional 1985-86, com 30 golos, o que nem assim lhe valeu a convocatória para o Mundial do México. Salvou-se, por isso, do escândalo de Saltillo. Mas não se safou de outro escândalo, que foi o de abandonar o Sporting de forma nada condizente com o seu estatuto, de goleador, capitão e alma daquele clube.

E é nesse Verão de 1987 que esta entrevista começa a ganhar pretexto. Manuel Fernandes, então com 36 anos, assina pelo Vitória e reencontra-se com o treinador inglês Malcolm Allison, sem esquecer antigos companheiros de luta no Sporting, como Meszaros, Zezinho, Eurico e Jordão. Na sua última época, Manuel Fernandes mantém os adversários em constante alerta e ainda marca 16 golos em 28 jogos, alcançando então a marca dos 485 encontros na 1.a divisão, ainda hoje um recorde nacional, à frente dos 483 de António Sousa (Beira-Mar, FC Porto e Sporting) e dos 476 de João Vieira Pinto (Boavista, Benfica, Sporting e Sp. Braga). Mas isso é o ranking dos jogadores. A quatro jornadas do fim, Malcolm Allison perde em casa com o Salgueiros com um golo de Carlos Brito (hoje treinador do Rio Ave) e sai do comando técnico do Vitória. É oferecido o cargo a Manuel Fernandes, que aceita o desafio, primeiro como jogador-treinador (sem golos), depois como treinador a tempo inteiro. Ao longo da carreira, já abraçou projectos vários, como o Estrela da Amadora na Taça UEFA 1990-91, a subida do Campomaiorense à 1.a divisão em 1994-95, as subidas do Santa Clara da 2.a B à 1.a entre 1997 e 1999, a conquista da Supertaça nacional em 2000, a subida do Penafiel à 1.a em 2003-04 e uma outra subida à 1.a com a União de Leiria em 2008-09. Neste clube, parecia lançado em 2009-10 quando o Vitória, desnorteado e sem rumo, afundado no último lugar, lhe lançou um apelo. Manuel Fernandes nem pensou duas vezes. "Razões do coração", justificaria.

Bom dia, Manuel Fernandes.

Espera aí um segundo. Estou a chegar ao balneário.

[...]

No Bonfim?

Claro. Isto é como se fosse a minha casa.

Pois. Olhando para a sua carreira, percebe-se a adoração por Setúbal. Porquê?

Para já, é o clube mais representativo do meu distrito de nascimento. Foi ainda o clube que me permitiu terminar a carreira de jogador com dignidade e também aquele clube que me permitiu começar a trabalhar como treinador.

Dignidade?

Sim, em Alvalade não me deixaram acabar a carreira como eu sonhava.

Então porquê?

Muito simples. O treinador do Sporting era um inglês [Keith Burkinshaw] que disse publicamente que já não contava com o Manuel Fernandes. Foi o pior que me podiam ter feito. Uma coisa é chamar-me à parte e dizer-me isso, outra, completamente diferente, é dizer publicamente, através dos jornais, que foi isso que ele fez. Na altura, chamei a atenção dos dirigentes para essa situação mas ninguém fez nada. Oito dias depois, o mesmo treinador disse o mesmo, numa outra entrevista. Pensei... ''bem, aqui não me safo.'' Na altura, o Fernando Oliveira, presidente do Vitória, já me andava a sondar e tranquilizou-me a dizer que tinha lugar no seu Vitória. ''Está descansado que vens para aqui'', disse-me.

E foi tudo assim, simples?

Assinei pelo Vitória mas a transferência ficou 15 dias em segredo. Só ao fim de duas semanas é que foi tornada pública. Lembro-me perfeitamente de chegar a acordo com o presidente na quinta dele e os primeiros treinos até foram aí, com o Roger Spry [preparador físico inglês, da confiança de Malcolm Allison, o treinador].

E teve direito à sua época de despedida com honra?

Sim. E marquei 22 golos [16 no campeonato e seis na Taça de Portugal]. E olhe lá que, ali pelo meio, lesionei-me e passei a treinador. Tínhamos uma equipa experiente, fomos buscar o Jordão [que estava parado há meia época, dispensado pelo Sporting] e o Eurico [central e único jogador a sagrar-se campeão nacional pelos três grandes]. O Zezinho [outro central, outro ex-Sporting] já lá estava, como o Meszaros [guarda-redes húngaro, ex-Sporting]. Aliás, o Meszaros foi a primeira contratação do Allison e isso é uma história curiosa. Eu e o Fernando Oliveira [presidente do Vitória] falávamos muito e ele pediu-me conselhos sobre o nome de um treinador para os ajudar a subir da 2.a à 1.a divisão, em 1986. Sugeri-lhe o Allison e ele falou com ele. A primeira imposição do Allison foi a contratação do Meszaros, que estava na Hungria [Gyor]. Eles subiram, obviamente [campeão da zona sul, com nove pontos de avanço sobre o Estrela da Amadora]. E eu juntei-me a eles na época seguinte.

Juntou-se a eles, mas sabia que tinha marcado 15 golos ao Vitória, pelo Sporting?

15? Tens a certeza? Xiiii! Não escrevas isso aí [risos]. Mas eu também marquei um ao Sporting, pelo Vitória [aos 29 segundos, na vitória de Allison sobre Burkinshaw por 2-1]. Em 12 épocas no Sporting, marquei 15 ao Setúbal. Numa época no Vitória, marquei um ao Sporting. Está bom. Ninguém fica zangado [mais risos]. E há outra coisa: nessa tarde de Novembro, em que marquei ao Sporting, fui substituído aos 24 minutos, por lesão. Só regressei aos relvados em Janeiro do ano seguinte.

Sporting e Vitória. Está visto que o seu coração só tem duas cores.

Verde e branco, e não é só por aí. O 1.o de Maio Sarilhense também joga à Vitória. São três as minhas referências.

Voltamos ao início. Porquê a adoração a Setúbal?

Quando jogava no Sporting, vinha muito a Setúbal. Em dias de folga ou aos domingos em que não houvesse jogos. Gosto muito da beira-mar e ia almoçar regularmente a Sesimbra e Setúbal. São duas cidades fantásticas que ainda fazem parte do meu roteiro. Profissionalmente falando, esta é a terceira vez que treino aqui. Toda a gente me liga ao Sporting mas já tenho muitos anos de Vitória. Se eu não treinasse o Vitória, não me sentia realizado.

É caso para perguntar se lhe falta alguma coisa.

Tenho o objectivo de treinar mais dois clubes.

Quais?

Agora não digo. Senão ainda pensam que quero sair daqui. Mas havia três clubes que gostava de treinar. Um já está, que é o Vitória. Agora faltam os outros dois.

Diga lá.

Não posso, não posso.

Tem medo das pessoas?

O quê, daqui? Nem pensar. Sempre me acolheram tão bem, com respeito mútuo. Só para ver: quando cá cheguei para jogar, já tinha 36 anos e ninguém me olhou de lado, como quem diz ''olha-me este a querer enganar a gente''. Aliás, um dia marquei quatro golos num só jogo, ao Varzim [13 de Março de 1988] e, se não estou em erro, fui o único jogador do Vitória a fazer isso no campeonato nacional.

[...]

Mas não, não digo [os outros dois clubes que quer treinar]. Guardo segredo para os desejos se realizarem [gargalhadas]. Mas ainda bem que falou das pessoas, porque o Vitória é um clube especial. Para já, é dos clubes que mais gente levam ao estádio. Faz-me lembrar o Leixões. Nas zonas piscatórias, os clubes fazem parte da família, entram na nossa casa. Sempre que o tempo permita, as pessoas acompanham o clube. Nesta cidade, os verdadeiros adeptos não são do Sporting ou do Benfica. São do Vitória.
In ionline.pt

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