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Sexta, 28 Janeiro 2022
Sporting – U.Tomar – 3-0: SÓ NELSON A «ESPEVITAR» UM BOCEJO DE… «TRÊS HORAS»! PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Segunda, 17 Fevereiro 1975 12:09

750217_fraguito_nelson_sporting_u_tomarUma nítida frustração, fruto de um certo descoroçoamento, acima de tudo de um notório «amolecimento» que passou do campo para os espectadores e para o crítico, vem ao de cima na análise de um desafio que durou a hora e meia regulamentar, mas que, cá fora (e talvez, também, lá dentro…) bem pareceu ter, não durado, mas demorado… três horas.

Foi, de facto, um daqueles jogos «chatos» em que, nas bancadas, bem cedo se pressente que o futebol-espectáculo não vai passar da cepa torta e isto porque os jogadores-intérpretes-desse-espectáculo deixaram a inspiração em casa, não se vai dizer que se esqueceram «do papel», mas há uma «qualquer coisa» que «emperra» aquilo e não se vislumbra a forma de ser encontrado o fio à meada.

Logo de início se viu a incapacidade total do União de Tomar para ter um mínimo de presença, não só do ponto de vista competitivo, mas, também, do agrado do espectáculo, pois, para além do compreensível, do natural, objectivo n.º 1, defender, (nem isso validamente estruturado, nem pouco mais ou menos…) a equipa tomarense rapidamente deixou a claro as suas gritantes insuficiências, em matéria de «tapar» o meio-campo e de elaborar um plano para ir lá à frente, de quando em vez, com um mínimo de «cabeça, tronco e membros» – e isso que, teoricamente, facilitava a vida ao Sporting, acabou, por muito paradoxal que pareça, por funcionar ao contrário, na medida em que, contagiando os «leões», os arrastou para uma toada lenta, monocórdica, generalizando-se, de parte a parte, a bitola do «adormecimento», do «deixa andar, que isto já se sabe quem ganha, e, mais golo, menos golo, para o caso não interessa muito»…

 

Que levou o Sporting, este «novo Sporting» da «era Riera», que até tem vindo a subir, espectacularmente, de rendimento, de semana para semana, a «alinhar», desta feita, pelo ritmo contrário, «baixando-se» até ao nível do adversário? – caricaturalmente falando, é claro, pois as diferenças, o desnível de categoria, nunca deixaram de ser flagrantes… e já agora era o que faltava! Excesso de autoconfiança? Francamente, não nos pareceu, pareceu-nos, sim, que, por um lado, houve falta de motivação (a tal ausência de firme réplica tomarense), e, por outro lado, somaram-se a técnica «a mais» (técnica fácil, porque sem velocidade) de alguns elementos e a não-acutilância de outros, isto dentro das velhas limitações da equipa «leonina» que, mesmo quando campeã nacional, joga tanto mais quanto mais actuar em velocidade e arreganho e tanto menos quanto mais quiser «fazer bonito» e ser estilista, sem ter nem talentos individuais, nem sedimentação futebolística para isso…

Repete-se, nesta equipa do Sporting, não são nem de hoje nem de ontem essas limitações e essa sedução que resulta em equívoco… que já lhe tem sido fatal.

Assim, mesmo diante de um meio-campo nabantino que, mau grado ser formado por quatro «pedras», não «tapava» terrenos, não era primeira «parede» e muito menos «prendia» a bola (neste capítulo, Raul Águas fez muita falta), o «miolo» sportinguista( Fraguito e Vagner) entretinha-se a «fazer festas» ao esférico, recreava-se com ele, caía no tal equívoco da sedução da técnica (mesmo que Fraguito e Vagner sejam, inegavelmente, os mais técnicos futebolistas «leoninos»), mas jogava em cinco metros, em vez de jogar em… cinquenta. Isto, por um lado. Por outro, no ataque, Dinis faz, de facto, muita falta, não só pelo que vale, em si mesmo, mas também porque a sua ausência obriga a que seja extremo-esquerdo um Chico sem… pé esquerdo, a atrapalhar-se e a atrapalhar as jogadas por isso mesmo e mais «trapalhão» ainda quando também ele a deixar-se resvalar para o campo de mais um toque, mais um drible, e tudo a passo, bem se sabendo que Chico, como Marinho, como o próprio Yazalde, só atingem alto rendimento, só são verdadeiramente perigosos, quando «soltos», quando solicitados e a solicitarem o «passa, arranca, recebe, corre, foge, chuta», quando «despachados» e com «a baliza nos olhos», em suma…

 

Fazendo durante quase todo o tempo a autêntica negação deste «ABC» que não se vê, que, hoje (mesmo já contando com Fraguito…), como ontem, possa deixar de ser a base, a «força motriz do futebol «leonino», o Sporting «desenraizou-se» e perdeu «trunfos», não, claro, ao ponto de neste jogo, chegar a estar em causa a conquista dos dois pontinhos, mas, inevitavelmente, por dessincronização com o seu ritmo, falhando, estrondosamente, a exibição – e podendo, inclusive, ter corrido o risco de falhar algo mais, não fora Nélson, «o senhor dinamite», um jogador a quem muita gente continua a não reconhecer a tremenda importância que, há várias épocas, assume no teor competitivo do futebol sportinguista, e que, no sábado, uma vez mais, meteu duas «explosões» (os dois primeiros golos, sendo o segundo simplesmente magnífico!) naquilo tudo, no seu jeito característico, e propiciou o brusco «acordar», o brusco «espevitar» de um infindável «bocejo» de hora e meio, mais parecendo… três horas.

 

Com o segundo golo de Nélson (sobretudo pelo exemplo de dinâmica que o jogador meteu no lance), o Sporting «espevitou» por momentos, finalmente «abriu a passada», fez o terceiro logo dois minutos decorridos, perdeu o quarto, com Chico e Nélson a falharem, a dois metros da baliza, a «oferta» de Palhares, após arrancada individual, mas ainda não findara esse primeiro quarto de hora da segunda parte e já o conjunto «leonino» entrava de novo (e definitivamente) na sua letargia – talvez a sonhar com vinte e quatro horas de antecedência, no que de bom poderia resultar, para si, do «frente-a-frente» Porto-Benfica, nas Antas.

Este «Sporting de Riera» está, sem dúvida, com a colectivização, a «arrumação», em suma, que não teve durante os meses vários de «suicídio», de autêntico «Hara-Kiri», começado com Di Stefano e continuado tempo demais, ao ponto do tão tardio «arrumar da casa» lhe poder custar a perda do título, quando até pela maneira como este campeonato decorreu, semanas a fio, para as bandas da Luz, bem poderia estar isolado no primeiro lugar. Poderá, inclusive, dizer-se que este «Sporting de Riera» mostra uma «armação» que nem o Sporting da época transacta exibia. Só que a «armação» não é tudo – e esta poderá ser a lição para o Sporting retirar deste jogo, assimilando-a, no sentido de que sem velocidade, sem arreguenho, sem profundidade, sem o «passa, arranca, recebe, corre, chuta», caindo, em suma, no tal equívoco da sedução  técnica, a equipa correrá o risco de repetir um seu velho erro, que tem sido, muitas vezes, o de não aproveitar as suas próprias características, acreditando ter talentos e potencialidades que não tem…

 

Mário Lino, profundo conhecedor do futebol «leonino», compreendeu e explorou como ninguém o «segredo» do «A B C» de um estilo muito próprio. Fernando Riera, grande perito em «armar» equipas, assimilará ou não esse «segredo», e, sobretudo, estará ou não de acordo com o ponto de vista que atrás fica expresso…

Individualmente, destaque para Nelson, sobretudo pela tal «dinamite» que pôs nos lances dos seus dois golos, ambos bem no seu jeito característico, espevitando bancadas entorpecidas num infindável «bocejo»… Os seus dois companheiros de sector, Fraguito e Vagner, exibindo embora, aqui e ali, a técnica e a visão de lances que se lhes conhecem, fizeram-no, porém, sempre «a dez à hora». Damas, raramente «apertado», mas com duas excelentes defesas, Manaca, o que mais se aproximou da nota «3» atribuída a Nelson, arrancando muito bem de trás para a frente, metendo excelentemente a bola no ataque (vidé lance do segundo golo) e exibindo, em suma, um belo momento de «forma», Bastos e Alhinho, «dupla» de «centrais» em que a pujança de Bastos se «casa» com a «souplesse» de Alhinho, e Baltasar, mais comedido nas suas arrancadas para a frente, talvez cumprindo instruções, mas tendo, por vezes, muitos metros de terreno vazio diante de si que não aproveitou – eis os componentes de um sector defensivo que só em dois ou três lances se viu em certos apuros.

 

No ataque, Marinho mais desenvolto e rápido do que Chico, algo «trapalhão» sobretudo quando na extrema-esquerda, sem… pé esquerdo e sem grandes oportunidades no eixo do ataque, após a saída de Yazalde que sentiu um início de rotura à meia-hora de jogo e pediu para ser substituído (até aí fora, acima de tudo, infeliz em três remates, um com o pé direito, dois com a cabeça, todos a rasarem a barra) e Palhares, o jovem extremo-esquerdo nosso conhecido da Selecção Nacional de Juniores de há dois anos, quando logo se viu que o seu pé esquerdo ia ser um terrível «quebra-cabeças» e «parte rins»… se o jogador arranjasse «caixa» para o futebol sénior. No sábado, a actuação de Palhares (durante uma hora) prometeu bastante. Habilidade às carradas,  a intuição mantém-se, a «caixa» e a desenvoltura parecem começar a aparecer.

 

Paulo Rocha jogou 27 minutos, sem grande relevo, talvez também porque, sendo um médio de origem, se exibiu na extrema-direita, passando Marinho para «ponta-de-lança», quando se pensava que seria Nelson a adiantar-se para a grande-área contrária.

Pouco a dizer em abono deste União de Tomar que vimos pela primeira vez neste campeonato e que, se jogasse sempre como o fez em Alvalade, estaria pela certa nos últimos lugares (se não mesmo no último) e não quase a meio da tabela, como acontece. A falta de Águas fez-se sentir, mas não explica tudo…

O melhor: o guarda-redes Silva Morais, com meia dúzia de excelentes intervenções e mais traído pelos seus defesas do que culpado nos cruzamentos de que resultaram os dois primeiros golos. De resto, uma equipa muito frouxa, até mesmo tosca,  talvez a equipa mais frouxa e mais tosca que vimos neste campeonato. Repete-se: se só jogasse «aquilo» estaria no último lugar ou a caminho. Mas como não está…

 

Também muito frouxa a actuação do árbitro Melo Acúrsio. Para além de alguma dificuldade em acompanhar as jogadas, resultante de uma condição física que pareceu um bocado periclitante… pelo menos, erros vários e graves que se podem classificar em de ocasião e de critério. Assim, no primeiro caso:

- Um «fora-de-jogo» clamoroso de um dianteiro tomarense, à partida para um contra-ataque, com o juiz-de-linha do lado da bancada a assinalar (energicamente, até…) a infracção,  o jogador em causa quase a parar, tão flagrante em que estava «quilómetros» fora-de-jogo, e o árbitro a «ordenar-lhe» que seguisse e o golo quase a acontecer…

- Em quase idênticas circunstâncias, um «fora-de-jogo» de Chico, só que, aí, também o fiscal-de-linha (o do lado do peão) não deu por nada…

No segundo caso, erros de critério, o que é bem mais grave:

- O cartão amarelo a Zeca, num lance em que, na sequência de um ressalto, a bola foi à mão do jogador, sem qualquer comportamento antidesportivo deste.

- Em contrapartida, lances de sistemático comportamento anti-desportivo, como repetidas «prisões de pés» e «entradas a varrer» (Carvalho e Barrinha foram useiros e vezeiros…) só foram punidos com a falta respectiva e os cartões ficaram muito quietinhos nos bolsos…

Senhores responsáveis da arbitragem o cartão amarelo é uma óptima inovação no futebol, na medida em que com ele se defende o futebol-espectáculo, mas há, urgentemente, meter na cabeça de muitos árbitros que o cartão amarelo não é para punir todas as «mãos» e muito menos só serve para esses lances… O cartão amarelo é para punir comportamento antidesportivo e há muitas «mãos» que não são antifutebol e muitíssimas outras faltas que o são, clamorosamente!»

 

Estádio de Alvalade, em Lisboa

Árbitro – Melo Acúrsio, do Porto

SPORTING – Damas (2); Manaca (2), Bastos (2), Alhinho (2) e Baltasar (2); Fraguito (2), Vagner, «cap.» (2) e Nelson (3); Marinho (2), Yazalde (1) (33m – Palhares (2)) e Chico (2) (63m – Paulo Rocha (1))

U. TOMAR – Silva Morais (2); Carvalho (1), Zeca (1), Faustino, «cap.» (1) e Fernandes (1); Pavão (1), Florival (1), Barrinha (1) e Cardoso (1) (54m – Fernando (1)) (72m – Raul (1)); Nhabola (1) e Bolota (1)

1-0 – Nelson – 18m
2-0 – Nelson – 47m
3-0 – Vagner – 49m

 

Suplentes: Valter (guarda-redes), Valter (médio), Tomé, Paulo Rocha e Palhares.

Suplentes: Quim Pereira, Kiki, Raul, Camolas e Fernando.

 

Substituições:  no Sporting, aos 33 minutos da primeira parte, Yazalde, lesionado, saiu, entrando Palhares (2) para a extrema-esquerda do ataque e derivando Chico para «ponta-de-lança», e, aos 18 minutos do segundo tempo, saiu Chico, «tocado» num pé, para entrar Paulo Rocha (1), que foi para a direita do ataque, passando Marinho a ser o «ponta-de-lança»; no União de Tomar, aos 9 minutos da segunda parte, Fernando (1) rendeu Cardoso, e, dezoito minutos depois, o mesmo Fernando, lesionado, foi, por sua vez, rendido por Raul (1), que ocupou o lugar de defesa-direito, adiantando-se Carvalho para o «meio-campo».

Cartão amarelo: a Zeca, por o árbitro considerar «mão à bola» num lance em que por via de um ressalto, a bola é que foi direitinha à mão do jogador.

 

Ao intervalo: 1-0.

 

Aos 18 minutos. Cruzamento da esquerda do ataque sportinguista, a bola sobrevoou toda a defesa até ao flanco oposto, onde Marinho a recolheu, deu dois passos, cruzou, por seu turno, a defesa nabantina «a ver» e Nelson surgiu a desferir uma «cabeça» vitoriosa, bem no seu jeito peculiar.

 

Na segunda parte: 2-0.

 

Logo aos dois minutos, o segundo golo «leonino». Insistência de Manaca, cruzamento para as costas da defesa e, no lado de lá, Nelson, com esplêndida visão do lance, em corrida, a  ultrapassar toda a gente, a rematar na passada, a «fusilar» o guarda-redes!

Aos 4 minutos, 3-0. No início da jogada, Palhares, a ludibriar dois adversários, a flectir para o centro do terreno, depois, aí, Vagner, já perto da grande-área, tocou para Chico e a «tabela» deste derrotou a defesa, Vagner voltou a recolher, isolou-se, rematou a um canto alto.

Resultado final: 3-0.

 

In http://uniaotomar.wordpress.com - (“A Bola”, 17.02.1975 – Crónica de Santos Neves)


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