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Godinho Lopes "Vou deixar um Sporting independente da banca" PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sábado, 12 Março 2011 18:55

110312_godinho_lopesO candidato promete investir no futebol, diminuir o passivo e acabar com as quintinhas em Alvalade

 

Luís Godinho Lopes nasceu em Moçambique e desde pequeno se habituou a ouvir os relatos do Sporting na rádio pela voz de Artur Agostinho. Chegou a Portugal com 18 anos e, apesar das dificuldades financeiras, começou a assistir ao vivo aos jogos do Sporting no antigo estádio de Alvalade. Construiu carreira na construção civil, tem negócios imobiliários e o desafogo financeiro permite-lhe hoje dizer que não precisa de remuneração para ser presidente do Sporting. Depois de ter deixado o clube devido a suspeitas de corrupção no caso dos navios da Expo - processo no qual foi absolvido -, quer voltar a entrar em Alvalade, como presidente, num dos momentos mais difíceis da história da instituição. Rejeita o rótulo de candidato da banca e da continuidade e aposta alto: caso ganhe as eleições de 26 de Março, Godinho Lopes promete títulos, uma liderança forte e menos passivo.


A condição difícil do clube foi essencial na decisão de se candidatar?

Se o José Eduardo Bettencourt lá estivesse, eu não tinha legitimidade para dizer nada. Ele foi eleito com 90% dos votos, isto não é uma monarquia, os sócios é que têm eleito os presidentes. Hoje podem fazer uma autocrítica em relação às suas escolhas, mas foram eles que as fizeram, e eu espero ser eleito pelos mesmos sócios que elegeram os outros presidentes.

Afirma que esteve nos quatro anos ganhadores do Sporting. Não foi também nesse período que o passivo aumentou consideravelmente?

Isso é demagogia e eu explico porquê. Só quando há construção de um estádio e de uma academia é que há investimento, e por isso haver passivo é normal. Se o Sporting não fosse o primeiro clube a fazer um estádio e a construir uma academia, não haveria outra em Portugal. Não havia investimento e não havia passivo. Importa perceber se este investimento foi feito para gerar retorno. Na academia o retorno são os jogadores, foram criadas condições para que o clube ficasse ao nível dos melhores. O Sporting não se nivela em Portugal, nivela-se pelo mundo. É evidente que isto obriga a que haja investimento. Quando se fala em 154 milhões de euros, é preciso considerar a construção do edifício-sede, que custou 11,3 milhões, do multidesportivo, de uma clínica, do Alvaláxia, do auditório... Se retirarmos os vários investimentos fora do estádio, o investimento efectivo foi de 88 milhões, ou seja, o custo por lugar foi mais económico que o de outros clubes semelhantes.

O pavilhão não foi construído, o fosso para passar camiões não serve para isso. Assume estes erros?

Eu era vice-presidente para o património e quando cheguei ao Sporting já havia uma tomada de decisão sobre a construção do estádio naquele sítio. A única discussão foi saber quantos lugares teria - decidiu--se passar de 40 para 52 milhões de lugares - e a minha votação na altura não interessa, pois sou solidário com as decisões assumidas. Aí acabou a pista de atletismo, ocupou-se grande parte do terreno e deixou de haver pavilhão. Foi uma decisão tomada no ano de 2000 pelo conselho directivo, ao qual eu pertencia. É importante referir que a última direcção encontrou uma solução para o pavilhão e vou construi-lo durante o meu mandato.

Ricardo Andorinho (ex-jogador de andebol do Sporting) acusou-o recentemente, num blogue, de eventuais favorecimentos a empresas de construção, quando era dirigente do Sporting, dizendo que tinha interesse nas mesmas. O contrato que estava feito para a construção do estádio foi anulado. Quer explicar melhor?

Eu não tenho de dizer nada ao Ricardo Andorinho, se ele tivesse alguma coisa a dizer deveria falar comigo. É fácil mandar atoardas, o importante é perceber o que se passou. Quando cheguei ao Sporting havia um contrato assinado [com o consórcio Somague/Teixeira Duarte/Ballaste Nedam] e verifiquei que não tinha um preço máximo garantido. Quando pedi o preço, os valores aproximaram-se de 160 milhões de euros. Não construo estádios sem preço máximo garantido ou por um valor que não se coadunava com o que deveria custar. Nunca poderia ser mais de 100 milhões, por isso assumo a responsabilidade de ter rompido um contrato que não fazia sentido nenhum para o Sporting. As pessoas falam em derrapagens mas não sabem. Posso dizer que quando rompemos o contrato já tinha baixado o preço de 160 para 100 milhões, mas sempre disse que o estádio devia acabar em 84 milhões. Custou 88 milhões, sabe porquê? Os 4 milhões a mais resultaram das alterações feitas pela UEFA devido ao escoamento do estádio (entre oito e dez minutos). Todas estas decisões foram tomadas em comissões das quais não fiz parte, com propostas abertas em público e com actas, por isso é pura mentira as acusações que fazem.

Diz precisar de 100 milhões para investir no clube. Como vai consegui-lo?

Eu quero deixar um Sporting independente dos seus credores e da banca. As pessoas falam em promiscuidade, mas comigo jamais um jogador do Sporting é vendido para a concorrência abaixo da cláusula de rescisão. Não tenho nenhum direito de os impedir de ir para um projecto desportivo que lhes possa pagar muito mais, mas para a concorrência directa só vão se for paga a cláusula, isso vai fazer parte dos contratos dos jogadores que assinarem pelo Sporting. Para que não tenha necessidade de vender um jogador a qualquer preço para sobreviver no dia-a-dia, tenho de ter um Sporting independente, daí os 100 milhões. É fundamental que as contas sejam regularizadas hoje, as receitas têm de ser superiores às despesas por isso preciso dos primeiros 60 milhões. Os 40 milhões são para investir na equipa para ter a certeza que o Sporting não gasta 3,9 milhões euros/ano com 16 jogadores emprestados, para poder dispensar os que não forem necessários, e para contratar um treinador e jogadores. Onde é que fui buscar este dinheiro, perguntava... reuni-me com a banca, é verdade, em torno de empresários, sim, em torno de fundos de jogadores, salvaguardando sempre o direito do Sporting, é verdade. Portanto, reuni- -me com várias entidades financeiras credíveis e consegui as condições para dizer que, sem aumentar o passivo e garantindo a sua diminuição daqui a três anos, tenho um projecto desportivo vencedor.

Vai revelar os investidores?

No dia em que ganhar começarei a utilizar os meios que tenho. Se por algum motivo os sócios entenderem que não sou merecedor de ser presidente, colocarei o meu projecto à disposição de candidaturas credíveis. Estou aqui para servir o Sporting, não para iludir os adeptos com promessas vãs em torno de um projecto. Tenho 40 anos de trabalho, sempre honrei os compromissos na minha vida e não venho hipotecá-la em torno de um projecto falso.

Vai utilizar o fundo de jogadores criado por José Eduardo Bettencourt?

Sim.

Não anuncia o treinador antes de dia 26, mas pode revelar um pouco mais sobre o seu perfil?

Neste momento estamos a eleger um presidente, não um treinador. Duque e Freitas estão a trabalhar há vários dias, a informar-se sobre os contratos dos jogadores (não sabem os salários, mas as datas em que terminam). Olhando para isso, criámos um modelo e definimos uma coluna vertebral da equipa, em torno da formação, e verificámos quais os lugares que precisavam de estar preenchidos. Não vamos falar em nomes porque isso era triste sem o treinador estar a trabalhar connosco. Já falámos com ele, temos um pré-acordo e acreditamos que serve o momento do Sporting. Tem de ser ambicioso, ganhador, tem de ter conquistado títulos, tem de perceber o papel da formação no Sporting, tem de ser uma referência para os jogadores.

Fala na dupla Freitas/Duque como os mentores do título de 1999/00. Não se esquece de Inácio?

Tenho toda a consideração por ele, foi o treinador campeão, isso não está em causa. Inácio jogou no Sporting e foi campeão como treinador, mas hoje fala-se dele como responsável desportivo de outra candidatura. Não vou comparar Inácio/treinador com Inácio/vice-presidente para o futebol. Não há lugar a mais experiências no Sporting, qual é a experiência dele nesse cargo? Seria incorrecto da minha parte desprestigiar o nome dele enquanto treinador, não o fiz nem farei nunca. As experiências do passado resultaram mal e precisamos de coisas concretas para tornar o Sporting num clube vencedor.

Não sabia do negócio da penhora do passe de Carriço. Como presidente faria isso?

Quando se pega num passe de um jogador e se entrega é porque o clube está muito mal. O problema não está no acto em si, mas no facto de o Sporting não ter mais nada para entregar para se responsabilizar por uma dívida.

Pedro Baltazar afirmou que o Sporting tem passes de jogadores hipotecados à banca. Tem conhecimento disso, e o que pretende fazer caso seja presidente?

Não posso aceitar entrar num projecto onde o futuro do Sporting está hipotecado. Estão hipotecados passes, assim como parte de receitas televisivas, etc. Quando falo nos 60 milhões, é para resolver este problema. Pretendo entrar num clube limpo para definir a estratégia futura sem estar preocupado com a maneira como o clube está preso no presente.

O seu projecto depende do sucesso desportivo. E se não conseguir títulos?

Não estou preocupado com isso, estou à procura da independência do clube e, se houver insucesso, saberei tomar as medidas para resolver os problemas. Não menti aos sportinguistas. A auto-estima deles está muito em baixo, razão pela qual decidi abdicar da minha vida pessoal em torno de um projecto para o clube. Estou a sair da tranquilidade do meu espaço para vir para um projecto conturbado porque acredito em mim, sempre fui vencedor na vida. Para vencer no Sporting só preciso de uma boa equipa e isso já tenho.

Muitas pessoas que passam pelo Sporting dizem que são engolidas pela estrutura. Couceiro afirmou recentemente que uma liderança forte acabava com as quintinhas. Concorda?

Completamente. Liderança forte e equipa forte em torno do presidente são as duas coisas necessárias.

Há democracia a mais no Sporting?

A falta de uma liderança clara faz com que um projecto forte se torne fraco. Pretendo explicar tudo aos sportinguistas e acredito que, se perceberem para onde vou, saibam que tenho uma liderança forte. E percebendo isto vão-se colocar em torno do líder. Não tenho de fazer alianças vãs para poder dizer que sou um líder. Se houver liderança, as quintinhas acabam de uma maneira clara, estou de acordo.

Tem falado com responsáveis de clubes estrangeiros. Que conhecimentos ou modelo de negócio procura?

O modelo de futebol, de presidência, a política de contratações, a articulação com os sócios, jogadores que poderiam ser utilizados no Sporting, o modelo de publicidade, a marca. Há muita coisa que se faz em torno destas conversas, mas naturalmente só vou falar com os melhores clubes do mundo.



"Chamavam-me o Pinana" Desde que anunciou a candidatura, tem enchido páginas de jornais. Mas para além da faceta de empresário, poucos conhecem o seu lado pessoal. Na infância jogava futebol todos os dias, aos 58 anos prefere o ioga e a ginástica nos tempos livres da sua vida empresarial e de chefe de família.

Nasceu em Moçambique...

Sim. Quando se vive longe, na diáspora portuguesa, habituamo-nos a olhar para o nosso país em torno do orgulho que temos em ser portugueses e do nosso clube. Olhamos para o clube com uma paixão completamente diferente. Foi em torno desses dois valores que me habituei a ser português.

Quando tempo viveu lá?

Até aos 18 anos. Aprendi a nadar no Sporting Clube da Beira, via os jogos todos com o meu pai, que era sócio. Jogava futebol todos os dias e chamavam-me o Pinana, que era o treinador do Sporting da Beira na altura. Joguei basquetebol no Ferroviário da Beira, enfim, tive a minha vida em torno do desporto, dos estudos que fiz, do Sporting da Beira e dos relatos do Artur Agostinho, que me ligavam ao Sporting Clube de Portugal.

Cresceu numa família leonina?

O meu pai era sportinguista, aos domingos íamos ver os jogos do Sporting da Beira, às vezes fazíamos 200 quilómetros. Aprendi a ser sportinguista e desde cedo o meu pai me habituou a ter esses valores por perto. Na altura via os filmes do Artur Agostinho, o "Leão da Estrela", por exemplo, ligado aos relatos que ele fazia. Jogava o Sporting-Benfica todos os dias da minha vida ao final da tarde.

Acompanhava o futebol português com atenção?

Claro. Lembro-me muito bem de ouvir o relato do golo do Morais [final da Taça das Taças], ainda no outro dia estive com o Alexandre Baptista a relembrar esses momentos. Não foi por acaso que estive no funeral do Damas, sinto cada um dos momentos do Sporting e sentia-o quando estava ausente. Quando venho para Portugal, em 1970, por necessidades económica, venho estudar para o Instituto Superior Técnico (IST) e começo nessa altura a ver os jogos do Sporting no estádio. Tinha um primo que era sócio e eu não tinha condições financeiras, mas comecei, com a ajuda dele, a ir aos jogos.

Houve algum jogo que o tenha marcado mais no antigo estádio?

Vi muitos, sabia a constituição das equipas de cor. Mas particularmente os 7-1 ao Benfica [Dezembro de 1986] e os golos do Manuel Fernandes. E 99/2000 e 2001/02, as últimas vitórias naquele estádio, às quais me sinto ligado.

Como começa a actividade profissional?

Cresci no IST, onde trabalhava de dia e estudava de noite. Dei explicações, trabalhei em orçamentos para empresas de carpintaria, procurei fazer a minha vida profissional em torno de valores. Uma vez encontrei um envelope ao pé da Carris com mais de quatro contos, que era muito para quem vivia com 250 escudos, fui saber quem era o proprietário daquilo, e devolvi o dinheiro. Mais tarde fui convidado para o Ministério do Trabalho, para analisar "um dia de salário para a nação" [campanha lançada em 1974]. O Vasco Gonçalves decidiu decretar esse dia, o 6 de Outubro. Acusaram o Costa Martins de desvio de dinheiro, eu fui analisar isso, o homem não teve culpa nenhuma, era ministro do Trabalho. As pessoas foram entregar o dinheiro no ministério sem ele estar avisado, o dinheiro chegava às catadupas, 6105 empresas vezes o número de trabalhadores que tinham foram entregar o dia de salário no dia seguinte. Tinha 22 anos quando fui convidado para adjunto do secretário de Estado da Habitação no VI governo provisório, e aí começo a minha carreira profissional e política.

Mais tarde muda-se para o sector privado.

Sim, entro na Engil, onde estou sete anos, dois deles na Venezuela. Aí, chefiei 2200 pessoas de 29 nacionalidades. Fui o primeiro dono da Soconstroi entre 1983 e 1997. Comecei do zero e quando a vendemos, depois de uma fusão com o grupo A. Silva e Silva, éramos a quarta empresa nacional de construção civil.

Resumidamente, passa depois pela Somague e entra no Sporting.

Estive na Somague até 1999. Depois saí porque não tenho dois chapéus, era vice--presidente do Sporting e ou estava no clube ou na Somague, saí na altura para favorecer o Sporting, diga isso ao Ricardo Andorinho. Jamais aceitaria um contrato como vice-presidente com a empresa na qual trabalhava, por isso me demiti.

Está também ligado ao imobiliário...

Em 2001 estive ao lado do João Soares a refazer o Rossio, ele tinha um mandato para acabar. Recebi zero em troco deste projecto, sou solidário com as pessoas que são minhas amigas. Quando saí do Sporting fui para a área imobiliária, construí a Estoril Sol e tenho outros projectos. Estou a fazer um hotel em frente à Câmara Municipal do Porto e além disso tenho restaurantes/pizzarias. Tenho uma vasta área profissional e gosto de honrar aquilo que faço.

Como é o Godinho Lopes na vida familiar?

Tenho cinco filhos. O primeiro é do Benfica, infelizmente tornou-se sócio quando era vice-presidente do Sporting. Os outros quatro são do Sporting, três são filhos biológicos e outro é enteado. Infelizmente um dos meus filhos não pode sair de casa mas tem todas as semanas tertúlias com amigos onde discutem com grande vivacidade o Sporting.

Consegue ter tempos livres? O que gosta de fazer?

Agora não, mas fora da campanha gosto de ir à praia, de passear, de fazer jogging, ginástica, ioga e gosto de ir ao futebol. Nasci em Moçambique e amo a praia e encontro aí a energia e o vigor de que preciso para o dia-a-dia.

Costuma ir a Moçambique?

Sim. A primeira vez que regressei lá depois de ter saído em 1970 foi em 1992 e fiz um filme. No outro dia mostraram-me uma cassete e perguntaram-me se já tinha visto aquele filme da Beira, tinha sido o que eu fiz. Correu Portugal inteiro até chegar às minhas mãos. Filmei a Beira inteira dentro de um carro. Tinha saudades daquele tempo, amo aquela terra como se fosse minha.

Quando foi detido pela PJ, qual foi a repercussão que isso teve na sua vida?

Não tive nenhum amigo a virar-me a cara. As pessoas perceberam que tinha havido uma injustiça naquele projecto e sempre acreditaram em mim. É evidente que fiquei triste pela minha família, imagino a minha irmã e a minha mãe fora de casa a ver o meu nome na televisão como detido, não é agradável. Ainda por cima foi a 19 de Março, no Dia do Pai, tinha a mulher e os filhos à minha espera para jantar e não fui. Mas todos eles estavam de consciência tranquila, porque me conhecem.

 

In ionline.pt


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